Obra a Negro

December 10, 2006

Carrego um fundo de mim mesmo.

Na minha mão uma mala preta de couro, seguro-a por debaixo com firmeza, na mesma mão levo ainda um chapéu-de-chuva, pendurado em dois dedos apenas, indicador e anelar, com delicadeza oriental.

Com a outra mão afago a barriga, coço a barba, faço um gesto imponente para ver as horas, olho de soslaio na suspeita de olhares indiscretos. Regresso à minha postura inerte.

O metro chega finalmente e eu entro. Faço questão de entrar antes de todos e de me sentar em algum banco onde não se encontre ninguém à minha frente, mas de onde possa ao mesmo tempo observar uma porção considerável da carruagem. Não encontro um lugar assim, permaneço de pé em frente a uma mulher de meia-idade, classe média baixa, são as mãos dela que mais me chamam à atenção. As unhas são brancas e compridas, reluzem com luz própria, ela olha para elas como quem olha para uma obra de arte. A sua roupagem distorce o requinte das suas singelas mãos, com tons de bege e cinzento em plástico e ganga. A inquietação dos seus dedos aumenta assim que ela nota o meu olhar, a tensão de um gesto ínfimo, num espaço inóspito, circunscrito à ausência até do pensar, gera uma náusea no meu intimo, apetece-me vomitar para cima dela, desgraçar aquele sitio com a voz terrível de um deus tirano. Afirmo este meu desesperado desejo, embora tão fútil, tão comum, tão… universal, com um chapéu-de-chuva bem vincado no chão, os meus dedos enlaçados como vigorosas cordas de um navio, daqueles que cruzam mares em tempestade.

Sinto a tensão concentrar-se no peso que deposito sobre este chapéu, como se ele fosse o meu bastão mágico. Só estes pensamentos me desviam desta rotina insuportável. A minha mala, certificado do meu valor, lembra-me quem sou, um símbolo da marca da besta que me foi conferida, do meu compromisso com a imortalidade, palavras notáveis que hoje invento, para me convencer que não sobrevivo apenas pelo luxo de uma suite no hotel mais caro de Lisboa.

A caminho do consultório esqueço o que sou, quem fui, e o que se depara a minha frente, aquelas unhas… Aquele verniz branco, saindo com vergonha debaixo de um kispo encharcado. Que visão insuportável…

*** 

-          Sente-se – Convida um senhor de mãos largas e peludas, enquanto desvia atarefado alguns mosaicos insignificantes do complexo puzzle que é o tampo de vidro da sua secretária – Pois bem, o que a traz por cá hoje?

-          Nada de grave… – Respondeu uma senhora de mãos calejadas, ajeitou o cabelo com um gesto nervoso, depois repousou as mãos no colo sobre uma mala de camurça, enfiando debaixo da abertura dois dedos de cada mão.

A adrenalina contida na possibilidade de cada gesto deixou o médico preocupado. Este puxou a sua cadeira para a frente, deu um último olhar para o monitor, e encarou por fim a sua cliente com a mais compassiva expressão.

Deste olhar não resultaram palavras, os dedos dela mexeram-se uma e outra vez, repentinamente passando da mala para o penteado, depois do penteado para a mala…

-          Como está o seu filho, dona Amélia? – Inquiriu com gravidade.

-          Está melhor, está melhor, senhor doutor.

O senhor doutor encostou-se confortavelmente na sua cadeira acolchoada, pegando discretamente numa esferográfica.

-          É só isso que a trás por cá?

-          É só senhor doutor.

-          Muito bem.

 Com um único impulso ele desencantou um papel de algum canto inesperado, com perfeita destreza e, gesto contínuo, inclinando-se sobre a secretária, colocou à frente do papel um braço pesado, com o cansaço sóbrio próprio de um médico. Um anel de ouro, com jóias a reluzir contra os olhos dementes da dona Amélia. A sua outra mão esgravatou com eficácia e com a descontracção necessária a um homem de alta condição, alguns caracteres imperceptíveis, embora para ela, suficientes e até familiares.

Com um único gesto, este um pouco tremido no inicio, mas compensado com um forte ímpeto final, descolou a folha da mesa e estendeu-a à dona Amélia, que já tinha aberto a mala para a enfiar nela o mais rápido possível, como se se tratasse de alguma preciosidade rara.

Dois sorrisos encontraram-se, e com um fugidio aperto de mãos, se despediram duas criaturas limitadas higienicamente a trocarem moedas por via de intermediários qualificados.

***

Já te perguntaste porque escolheram os índios viver sem cidades?

Porque sempre hesitaram em escolher rasgar a terra com ceifas?

Porque crêem com certeza cega na imortalidade da alma?

E nós, nosso amor mais puro que ouro, o que fazemos nós imersos neste imenso labor, nesta fábrica colossal de uma realidade mortal? Que estranho desafio nos foi proposto à nascença, o de a tornar suportável…