Crepusculo
March 8, 2007
O céu está a arder. As torres do Grande Império já serviam como candelabros ao anunciar do julgamento, dizem. Eu acho que o fim é agora porque o céu está a arder negro e a chover caos, eu penso que o fim é agora porque há cinzas nos nossos cabelos. Porque há luz nos teus olhos brancos e a espessura das rosas sai-te das palavras, porque a nossa peste se dá como corpos fundidos.
Começaram os disparos e a correria iniciou-se, eu sorria a luz da tua morte nas veias vivas do céu tapado por uma bandeira sem fronteiras. Fardados, amados pelo deus das causas fictícias, estampados e rijos no panorama da batalha: “contra as prostitutas!” gritavam, “contra a hipocrisia de uma nação que rasteja, coberta de porcaria, cujo à inteligência falta a dignidade de uma pátria” e nós fomos empurrados para perto do mar, com os peixes. E quando me movia entre os becos escuros da cidade, escutando as botas de um solo que nunca se fecha, via as pessoas que se esqueceram, todas as pessoas que se esqueceram, nos peixes, a arder no por do Sol. Nunca acabavam, rastejavam de volta com Salazar nos braços e diziam “Abram alas o céu!”
Os teus dentes escorriam morte. O teu sorriso, uma picada acutilante. O que tu dizias eu não percebia, escondia-me no som das sirenes que trespassavam edifícios abandonados e definia-me na quietude da minha invisibilidade, na mudez da minha expressão. As milícias passavam, de braço erguido e punho fechado, “Á liberdade da prisão!” Perto do Sol, eles esqueciam-se sempre da linha ténue no começo das mentiras e, engrossados, pulsavam o seu veneno a longos tragos: o veneno de se ser sem perceber.
Esgueirei-me entre um e outro pilar na escuridão nocturna e encontrei-me numa perpendicular. Senti a humidade esfregar-se de encontro à minha pele, constatando uma vagina na parede, fechada, perto da ranhura da moeda. Abaixo da mesma uma grafite marginal “quero mais” e perguntei-me o que havia mais a desejar, nesta Idade de Ouro. As moscas que ainda viviam rondavam o órgão sexual, e, à minha frente, um corpo enrolado e apanhado pelo pescoço, suspenso no ar, publicitava:
Salazar, o obreiro e maior patriota português
A Nação portuguesa ficou empobrecida nos seus valores humanos
A História de Portugal, oito vezes secular, enriqueceu notavelmente durante o governo de Oliveira
Salazar
Um dos mais notáveis portugueses do mundo e o maior português deste século
Portugal deve-lhe a definição dos sãos princípios sobre os quais tem de assentar a defesa da moral, da justiça, da ordem, do trabalho e da família e a defesa da pátria contra o comunismo
Ao fundo, Nunes Figueiredo caminhava os seus homens com alienígenas mascaras de gás presas aos orifícios, uma máquina que respira. A sua cabeça esquecia-se, com os peixes do Pôr-Sol. Ali perto, ao canto do quarteirão já avistado, jazia a ruína onde tomara lugar a rixa entre os anarquistas, na ponta da antena curvada que coroava a construção, uma rosa. Á frente do prédio (néon em letras ‘Portugal precisa não de um novo mas de dez novos Salazares, enforcados’), e desconfiados de nada, uma multidão de neo-nazismo e neo-fascismo (com um neo antes de tudo) conspirava sobre conspirações idealizadas, os olhos fechados ao facto de que o mundo já chegara ao fim.
Eu asfixiava, mas depois, vi a luz no céu tapado e poluto, uma luz maior, nunca interrompida por petulantes brilhos estelares. E a humanidade conquistara os céus.
Em LSD, aproximou-se, a única mulher capaz de me olhar, porque desconhecida. Rolava a cabeça como se esta fosse livre no ar, e abanava os braços, mostrando o pénis inserido na sua mão por cirurgia, “O nosso silêncio é a nossa vingança, e por isso está tudo bem. Tudo o que se atira ao fogo é tudo o que volta”