A Metade Devorada

February 10, 2007

Onde? Onde é que a ave azul não me permite dormir? Porque canta alegremente na minha noite matinal? A esperança impede os mortos de descansarem, e nenhum sono é de paz nesta casa sem Deus. Eu vi-me a ser demais enquanto via muito em ti. Tu és tão traiçoeira quanto os pássaros da alegria.

Aninham-se, parece uma luta, que uns cantem contra os outros, parece-me uma luta que ignorem o silêncio entre si: não descansa na solidão, odeia porque tenta alcançar o que não se alcança: outro.

 

 

Talvez porque éramos todos reflexos uns dos outros num espelho de corpos e as palavras faziam amor com as imagens, nós falámos. Abriste a porta e entraste. Estávamos de olhos vendados e corpos sem roupa, uma vela, entre nós, de pernas cruzadas, as mãos nas mãos: havia fogo que passava entre as coisas que éramos nos nossos corpos pequenos, cheios de uma chama que parecia grande e que nos apagou.

 

 

Tudo o que aprendi contigo é um pesadelo, quero-te morta sempre que te recordo, quero-te mais fria do que o gelo entre nós: quero-nos dormentes. Quero que deixes a minha almofada onde repouso para dormir, que me deixes dormir. Perder o acesso ao teu nome, contar-te como se fosses uma estoria. Quero que tu não te chames J. e que o ano novo em que te conheci nunca tenha existido, e que a banda nunca tenha existido, quero que vocês se calem e se apaguem sem rastos nem ecos. Vou desaparecer. Quero alcançar o infinito, só para lhe roubar o fôlego, mutilar o vagabundo, findar esse deus de pureza, no término de um homem que foi só e nunca mais do que meio devorado.

 

“Sinto que te conheço desde sempre, como se o mundo tivesse sido construído aos nossos olhos e sempre tivéssemos sido companheiros.” Quando eu desaparecer, e já não me conhecer, como tu nunca me conheceste, ainda te conhecerei, como sempre me conheceste.

 

Sou os risos, as bocas escancaradas e aquele que as escancarou, sou torrentes de sons ocos, desapareço. A tua mão enganou-me um dia no calor, a tua mão é uma boca oca de riso vazio. O meu coração é um abismo onde tudo cabe e nada se vê: são dois quartos escuros que não existem na sua escuridão.

 

Os olhares que estavam dentro dos teus olhos são agora nenhum olhar. Vozes que não eram vozes: expressão muda da mudez que se enganou na miragem das articulações. Nós nunca falamos. Nós existíamos dentro de cabeças que eram as nossas próprias cabeças. O escritor não tem dedos. Nenhum corpo é seu, nenhuma memória é sua, nada é seu: acabou, agora os anormais fecham a luz. O escritor nunca pecou, e atirou a primeira palavra, e o lago ondulou esquecimento no espelho.

 

 

Eu dizia-lhe que era um fantasma, e ela sorria.

 

Talvez porque éramos todos reflexos uns dos outros num espelho de corpos e as palavras faziam amor com as imagens, nós falámos.

 

Eu nunca te conheci, e nunca te compreendi, nunca te quis e nunca te vi, e nos padrões entranhados dos padrões, nunca chegaste a mim: impostor duas vezes. De criança não tens nada. Tu caíste, desse lugar vertiginoso onde só as pernas te impediram a queda, e tu devias ter parado de respirar, pedaço de merda: de sentir, de viver, de amar.

 

 

As paredes desaparecem. Existe céu. Existes tu sepultada no céu, e por causa de ti, nego-o. Nego-o. O meu coração engoliu-o o mar e o abandono foi um eco que se perdeu na arte do desvanecimento.

 

 

 

O teu chá tem sempre veneno. Eu sou o meu próprio castelo: soterrado nas suas muralhas caídas, a erva cresce sobre mim: os contadores de estorias dirão que eu sou o leite das estrelas. Das suas harpas escaparão fadas com pés de promessa e línguas de queda. Tende sede, pois eu já não possuo sangue, e tendo sede tendes sangue. A vossa maldição já não me diz respeito (sou a boca que a pronuncia, oca, vazia).

 

Eu pensava: talvez: como se ela não fosse ter a ultima palavra, como se a sua ultima palavra fosse: fosse.

 

 

Gostava que tu viesses.