A Metade Devorada

December 28, 2006

Escrevinhava enquanto pensava no que escrever, como se houvesse escrever e escrever, e desenhava um poema, distraído, construído nos becos e arrancado dos becos que ecoavam o pensamento do seu silêncio.

 

Era de noite na cidade

 

Os ébrios arrastavam-se, perdidos,

 

As prostitutas volviam-se, nos seus abrigos,

 

Os gatos assombravam presságios de amor,

 

A lua contava uma estoria de dor.

 

Os lampiões das ruas desertas

 

Soltavam baças sombras,

 

E no prédio velho aquela ultima luz,

 

Na última janela, tremeluzia apagada.

 

 

Foi ai que tomei a estrada,

 

Perguntava-me o que foi de nós e tu dizias:

 

Nada.

 

Foi então que dei por ti atropelada

 

Sirenes de cigarras assombiavam, e tu eras

 

Nada.

 

Os gatos perdiam-se no teu cadáver,

 

E tu eras

 

Tudo.

 

  

            Uma Carta:

 

Escrevo-te no mesmo caderno em que contigo no pensamento, aprendia, lentamente, a desenhar. Pergunto-me o que quero eu com esta carta? (Riso) Nada. Absolutamente nada: é a minha resposta em primeiro. O que quero eu? Nada. Tudo. Eu quero desabafar, um lugar, um bar acolhedor, uma noite que sabia a casa de verdade e que já está tão distante que este viajante esquece muito sem nunca esquecer. Reise. Reise… Tu foste uma sereia, tu foste feita de beleza, paz, amor e desejo. E tu, ou sereia alguma, nunca foste minha senão numa transcendência que não pertence.

 

Contei-te uma história: a sereia, enquanto o homem tocava gaita-de-foles para o mar, surgiu-lhe. Casaram e mais tarde ela foi obrigada a voltar para o mar. Contei-te essa estoria e o meu sorriso espantou-te. Contava a tua história. Sempre soube que não ias ser minha, mas amei com liberdade. Não te pude salvar, nem tu fazeres-me feliz senão por momentos. Mas de que é a felicidade senão de momentos?                                                        Cada passo é um abismo,                 é atirar-se nesse abismo, porque o abismo é a                  , e o fim é a luz          . Eu perdoou. Eu reconcilio. Eu aniquilo a negação e dou paz aos contrários.

O que és,      ? Senão o vento nas folhas que não pude alcançar? O vento, a brisa que me tocou, que passou por mim e que não pude agarrar. Todos os homens procuram a imortalidade, a imortalidade é um nome para a vitória, a vitória um nome para a derradeira luz. E só na mortalidade vai um homem encontrado essa imortalidade. Sei o que é a solidão, sei o que é chorar a morte, mas também sei o que é a plenitude, e sei que a plenitude nunca morre.

 

Sei bem a tua face pálida e o teu esgar escuro de demónio, todo o deus tem um diabo (riso). Esse demónio é segundo a importância concedida e é-me pouco importante.

 

Hoje estive com o      e com o       , dai estar a                             . Gostei de os ver bem ou pelo menos a sobreviver, quanto a mim       calar-me.      só me faz mal. Alias, em quem confiaria? É com dor que constantemente sonho, por exemplo, com a       , com dor inimaginável a imagino apagar-me enquanto faz amor com ele e imita todos os gestos que já foram belos comigo. Ah, e pensar que ninguém no mundo a vai amar tanto como eu, que ninguém a viu feliz como eu vi, que ninguém a perdeu como eu. E estava ferido, como um guerreiro que ainda vai mais a luta tentei nem sei o quê contigo. Depois, vi que tu mais que ninguém me         a varias outras coisas. Aprendi                                . Aprendi que nunca seria amado com tudo, que                                      , percebi que essa fase me bateu a porta para ficar durante pouco tempo e depois partir. Isso aconteceu                                                                                                                                          ,          me traiu. Eu desafio Deus, desafio o Diabo. Sei que para chegar                . Hoje no caminho de volta, na noite em Lisboa em que tudo é escuro, pensei seriamente, ou com alguma seriedade, que provinha de uma dor pouco suportável, no          .

 

Um homem amou demasiado a humanidade, mas esta desprezou-o, assassinou-o, mas este homem e o seu amor conquistaram a imortalidade. Talvez essa seja uma história tão válida quanto a sereia voltar ao mar. Uma vez ouvi a estoria de uma concha no deserto, ela trazia, dentro de si, ainda o som do oceano, e por isso ela ficaria ali à espera do oceano…

 

Hoje não me falaste. Ontem disseste estar mal. Nós podemos, e tudo o mais, ser uma merda, mas se é isso que somos, fomos criados com beleza, e essa beleza é em si perfeita, plena, e divina.

 

Não saiu, e quando saiu é como se nunca tivesse saído do lugar. Estou com a estranha impressão de que a vida não passa de um sonho e que não estou realmente em lado algum, que nunca estive ou vou estar, e que isto não está a ser escrito.

 

Eu podia amaldiçoar a vida, e talvez o faça a cada respiração, mas também a abençoou. Honra. Existem momentos em que dizes “eu morria se fosse preciso, para viver como estou a viver este momento”, então, por mais que doía, honra.

 

Nós éramos alguma coisa. Nada. Não mais. Desonra. Talvez, ao veres-me falar, penses que sou feito de força, e se assim pensas em nada erras. Sabe, porém, que o meu               , nem, apesar do silencio que tento desenvolver, a minha fragilidade. Os ventos querem observar o meu sangue espalhado, eu tento conte-lo e dói tanto como ser em tudo meio-devorado e a dor de ser meio-devorado.

 

Dói-me. Dói-me. Dói-me.

 

Sei que é cada um por si, que este é um antro de          . Sei que nunca pude contar contigo de verdade, ou com quem quer que seja, ou mesmo comigo.

 

O metal é aquecido em vaso fechado, enraivecido, deixem-me sair! Deixem-me sair! Deixem-me sair! Soltem-me, mas depois a              . O rumo certo eu sei-o sempre. Tu procura o teu. Sei que somos amigos e que não estamos um pelo outro, mas a serviço de um qualquer demónio que fingimos desconhecer. Sei que somos inimigos. 

 

 

 

PS: Sei que somos amigos, a serviço de um qualquer anjo que teimamos esquecer, e que esquece o tempo, e que o tempo esquece.

 

 

03:03

18 de Novembro

 

 

 

Introdução

 

1

 

O caminho até à cabine telefónica fora feito por um deus guerreiro, o seu corpo inclinado contra o vento, o seu casaco de flanela, preto, a desenhar os movimentos da corrente. O regresso foi percorrido por um homem trémulo, solitário e escondido do mundo. Podia avistar, no fim da linha de comboio, o vulto a aproximar-se como algo a mover-se indistinguível. Depois a sua nitidez, e era só meio-homem. Dentro da força decepada daquele meio corpo a mortalha para toda a sua vida, que passou depressa. O seu corpo, desfeito pelos carris. Uma vida inteira de momentos passados e gastos a diluir-se como um vapor rápido de memórias apagadas. Quando o comboio desapareceu de vista, o olhar do Vagabundo. Também aquele não chegaria a ele. Ninguém destinado a sê-lo chegaria a ele, daí a sua perfeição.

 

 

2

 

Sentei-me, hoje, de noite escura, naquele sofá habitual constituído simples, por almofada de um sofá de verdade que estava rasgado e envolto de pelo de gato e que foi deposto mesmo ao lado do caixote de lixo na noite antes de aparecer o carro que o recolhe com tantos sons despertando o vazio das ruas do Penteado, uma aldeola entre duas vilas. Depois, outras almofadas que não me recordo de onde vieram, talvez trapos da minha avó, faziam o encosto e, como habitual, confortado por isto pus-me quieto dentro de tudo o que é inconfortável como se fosse conformismo. A música, a tocar baixinho, embalava tudo um pouco numa melancolia perene. Como se fosse preciso um suporte para, simplesmente, sentir. Como se fossemos tão débeis que precisássemos de suportes para sentir. Como se fossemos máquinas frias e fantasmagóricas, inconscientes dentro do vazio gélido do consciente. Pensei que queria desprezando. Pensei que talvez ela pudesse estar ao meu lado. Quem sabe a beijar-me. Pensei que, como em raros momentos, ela podia estar verdadeiramente comigo. Esses eram momentos irreais. Ninguém tem tempo, ninguém tem disponibilidade, por outras palavras, não há coragem para se estar de verdade com alguém. Olha-se por detrás do ombro, com os olhos cegos de gelados, em frente, planeando esculturas de pedra fria e sem expressão, olha-se para dentro para se contemplar a dor, para se agarrar à dor, para se suportar. Continua-se e fim. Ah, se o mundo fosse de um Divino mais vivo, quem sabe, ela pudesse ser mais vivamente aquela divindade de juba solar, vestes de sereia e corpo felino. Nesta divindade fantasmagórica que é, é aquela escultura de Inverno que está descontente mesmo consigo mesma, que se trocou por pedra e nunca ousou olhar ao corpo de fogo. Bonita, não obstante, quão bonita. Sincera, pura, serena, nos seus olhos brilhantes prados sem fim, feitos de paz. No seu sorriso que consigo causar rasga-se uma alegria inabalável ou insuportável e mostra-se a fulgurar. Enfim, pensei em como já dançavas longe porque nunca estiveste senão na imaginação, e o que não? Se existes és um corpo tão celestial e distante quanto uma nuvem bem bela e púrpura de serena, ou de pesadelo aglomerado. A minha mão chega às nuvens, a minha voz controla as nuvens. Tu, inatingível como uma nuvem, presa nas teias bailarinas de uma imaginação mais bela que a própria lua ou tudo o que tem luar. Que um próprio lago ou todos os nenúfares prateados pela noite em sonoridades gotejantes. Aparece. E apareces. E pereces. E imortal. Quantos foram os monstros que te atacaram? Quais os seus nomes? Tu não sabes, tu nunca lhes resgataste os nomes, que pena. Quem tem o nome tem o comando, tem o controle, quem tem o nome é Deus, quem escreve é a história que se faz. Quem vive está entregue mas também perdido, quem vive e não escreve e não dirige esquece e corre perigo. Quem escreve e é esmagado pelas letras e encoleirado pelas frases escreve as próprias feridas e entrega a si mesmo o abismo indecifrável. Ah, mas tu, só sabes o hálito dessas vis criaturas sob o teu pescoço a aquecê-lo, a adoecer o sangue fermentado. Mas tu só cais e não sabes onde e te ausentas dormente para não sentir quando voltas a cair, sem parar nunca de cair em primeiro lugar. Cais quando te ergues e morres quando cais. Eu sei que o afecto ausente é como um terror presente no afecto, que não sentes, que não és.

 

Eu esqueci-me e voltei atrás, tu deste-me um livro e estávamos no Pinhal Novo. Tudo brilhava à excepção dos meus pais e da casa e da escuridão e da tua partida longínqua porém iminente. Eu escrevi esse livro e não sei quantas páginas tinha, ou se tinha dor que sei que também tinha mas sei a paz. Enfim, dane-se. Penso em todos e no medo de escrever, se se dá largas a tudo perde-se tudo… Eu queria ver como seria tudo quando tudo estivesse destruído e se o escrever assim mesmo destruirei mesmo tudo nessas nuvens reais e que são todos os dons e que gosto e sagrados.

 

 

3

 

A Luz Divina, tudo o que é indescritível e que não profanarei tentando descrever, um outro lugar mais livre, um outro corpo mais livre, um espírito igual, omnipotente. A partida heróica ancorada no Vagabundo, e todo o atingível a justificar o inatingível.

 

 

 

 

 

Parte I

 

Quatro e vinte e cinco da manhã, quando Abreu despertava. Mais uma vez o despertador interior suplantava a carência de qualquer despertador externo. Constatou ser o tempo exacto pelo relógio que lhe fora oferecido, pela mãe, na época natalícia. A mãe, esta, já se encontrava a costurar, e a irmã mais velha, Sofia, ajudava a tal tarefa como era usual. A cama de Abreu era uma mala de tamanho suficiente para ele se aninhar e dormir aquelas poucas horas em que descansava da vida sem saber. A custo, por não ter vontade de ser forçado a passar por mais um dia, levantou os cobertores, espreguiçou-se, ergueu-se de encontro à bacia e atirou agua para a cara. Maldita torneira pingava noite fora. Estava frio mas lá se esforçou por despir os seus farrapos e preparar-se para mais um dia de trabalho. Deu um beijo humilde à mãe, cumprimentou Sofia e, após observar o sono requintado da irmã mais nova dos quatro, desejando sê-la ou nunca ter sido de todo, deixou a casa. Noite, o frio da manhã ainda distante mas a querer já furar pela noite. O rio, as luzes da cidade a quererem ser lembradas pela agua escura e reflectiva. Passou pelo banco onde, ébrio, e depois de uma noite ébria, dormia o seu irmão. Era mais novo mas, por ser de uma melhor constituição física, descansava no banco porque a casa já era apertada para tantos.

 

As ruas brancas sumiram-se à frente dos seus olhos enquanto a gélida manhã se acentuava. E de repente, sempre assim, já se encontrava à porta da fábrica. Esperou ali. Observava, com desejo, as pessoas a passar. Confundia-se no desejo de alguém e no desejo por tabaco. Sabia que uma pessoa traía, mas que o cigarro, mesmo matando, era leal. Finalmente tomou coragem, chegou-se a um rapazito de cabelo rapado, de má cor e pele magra, que lho ofereceu enrolado. Acendeu-o, respirou o fumo e deitou-o fora sentindo que, na verdade, não estava a fazer nada. Procurava disfarçar um vazio no vazio, e depois o tempo passava sem mais nada e a próxima coisa de que se apercebeu foi que o cigarro já quase tocava nos seus dedos. Deitou-o fora, insatisfeito. Deixou-o por pisar. Pingava levemente do céu. No tempo de espera ele reflectia-se como num engano, como se não devesse estar vivo, como se sofresse por um erro que não entendia. Finalmente, um homem gordo, de camisa branca abotoada, gravata e calças escuras, abriu a parte detrás da carrinha e ofereceu-lhe uns quantos maços de jornais e uma pequeníssima chave. Abreu dirigiu-se ao local das bicicletas de onde desamarrou uma delas, fitou a rua molhada e indiferente que teria de percorrer, e partiu, pousando os jornais cinzentos na cesta.

 

O homem gordo observou a sua perna aleijada pedalando enquanto arrumava mecânicamente mais uma série de jornais.  

 

 

 

Acendendo um cigarro, Horácio observou o tabaco queimar e ajuntar-se todo numa massa preta e encolhida, fumegante. Sorveu um trago de fumo e imaginava que lhe roubava o sopro, a vida, tal como o tempo em si, a passar sem passar, a apagar tudo o que ele vivera de si. Depois continuou a observar o campo, ele já combatera ali anteriormente. No lugar daquela poça ao lado do granulado molhado, já o vermelho do sangue manchara. Já ali perto um corpo de olhos vazios fingiu existir numa contradição contra o mundo do suportável. Já perdera o seu quinhão, já levara um punhado de inimigos. Á primeira guerra foi obrigado por obrigação civil, mas a Índia foi por escolha própria. Afigurara-se-lhe na sua mente que sempre vivera por hábito, quando veio a guerra não temeu com a possibilidade de ser chamado. Estava pronto a defender a nação, mas uma vez já naquelas árduas condições descobriu o verdadeiro significado de tudo. Ali, no meio do perigo e da morte, empestado com o cheiro aguçado da sobrevivência, a vida retirava a sua mascara e mostrava-se, nua, na sua agudez árida e porém profunda, como um buraco agreste, gelado e fundo. Alguns resumiam a sua vida a subir esse buraco pois ouviram falar de uma certa luz no topo, outros descendem, desesperados por um chão. Todos se arranham, todos se empurram, outros ajudam-se porque servem de suporte. Enfim, descobrindo isto sentiu-se livre, e por liberdade quis participar na guerra da Índia. A sua esposa estava com ele naquela terra abundante de miséria, de ódio e de medo. Quisera partir com ele, não era nada sozinha. E por isso só prezava ela a lealdade, e por isso só ele a desprezava. Ela estava grávida. Há bem pouco tempo Horácio caçara uma tartaruga enquanto cozinhava uma sopa e ambos se alimentavam dela, quando a sua esposa lhe contou. Contou-lhe como o período não veio, como os seus seios estavam doridos, contou-lhe da saliva, dos enjoos e de mais uma série de coisas que ele fingiu não perceber, e sobre as quais nunca mais pensou. O seu destino aceitava-o Horácio com honra, mas não deixava de ser verdade que carregava aquela mulher às costas como teria de fazer por toda a vida. E aquela mulher só tinha necessidade dele. E aquela mulher não o amava…

 

O sargento gritara atrás de si. Horácio voltou à realidade a tempo de avistar o seu cigarro apagado e esmagado a ser arrastado pelo vento. Voltou-se de encontro à voz, como uma traça procura, instintiva e perdida, a luz.

 

 

A minha pele estava encostada ao áspero daquele sofá em Oeiras, comigo quase a reparar no incómodo das coisas que raspam o nosso trajecto mesmo quando estamos quase parados, e mexia-me sentado, imerso no calor suave do meu corpo cego, gesticulava por entre o calor da luz amarela como faíscas liquidas, faíscas paralisadas num momento que rasga e desafia. O sofá, carmesim e desenquadrado da restante casa quadrada, mostrava como que uma selva de palmeiras, desgastada pelo tempo de quem o usou indiferentemente o suficiente para levar uma vida. A pressão subia e a cor do sofá não existia, e os outros, o meu irmão, a minha mãe, eram como fantasmas de um futuro que julgavam os meus actos no acto estático de uma aguda aranha. Eram pedaços rasgados de ventos furiosos ou estagnados que escutavam os meus momentos com pensamentos próprios. Talvez porque o brilho no olhar da minha mãe dizia que estava tudo bem, eu continuei até poder enganar todos, porque eu vivia por aquela mensagem e não a compreendia ainda, sem mesmo a compreender ainda: todas as condições se reunião para me afirmar na minha falta de limites, para me regozijar e voltar a regozijar ao derrubar e expor os limites dos outros que respiravam insuportavelmente comigo. Crescia um som, como uma panela de pressão sob pressão, subornava o espaço entre as coisas e o espaço entre as coisas tornava-se tanto claro como viscoso agarrado às coisas, a ser as coisas e a claridade que rompia na paralisia da luz amarelada. O meu pai, com um ar quase divertido, erguia-me no ar pelas orelhas, eu esperneava e não sabia, porque só sentia a excitação do momento, porque ouvia o lamento da minha mãe, porque tinha de novo solidez debaixo dos pés. E porque cuspi um “filho da puta”, encontrando, finalmente, a paz, no olhar preocupado da surpresa de todos. 

E fui erguido como se elevado por um deus qualquer, glorioso, e fui atirado de novo como um peso sem peso, e rompendo pela saturação, o meu pai fechou a porta atrás de nós, estava escuro, e na bruma haviam sempre coisas em demasia, coisas que despiam um manto de invisibilidade e que vinham pesar. Então, as suas investidas conheciam o meu corpo porque a dor se estendia sobre ele como túneis luminosos de gritos sufocados, e lacrimejava no meu olhar, e arregalavam-me a carne vitoriosa. 

 

 

A senhora Eduarda, suada e escorregadia, cambaleou de forma embaciada deixando-se no pequeno sofá já meio comido. Arfava e não conseguia evitar as contracções. Aliás, apesar de saber que isso significava dor, não devia de as evitar. Lembrava-se da cor quente na manhã solar daquele jardim, do perfume fresco do jasmim, da face daquele homem e como se divertiam com tudo. Naquele dia ele tinha ido buscar duas folhas, uma seca e outra húmida. A húmida pô-la por detrás da sua orelha e enfiou a seguinte no cabelo dela. Enrolaram os dedos e prometeram amor eterno, renunciaram jamais amar a outro. Algumas semanas mais tarde o pai de Eduarda batia-lhe de cinto pois soubera que o seu namorado participara do acto sexual com outras mulheres. Com mais do que uma, mesmo. Foi só nesse dia que ela soube, rubra, pois ouvir “acto sexual” era envergonhante. A única coisa que ele a levara a fazer foi mover-lhe a mão para a zona do seu falo. E ela, tímida, quis recuar.

 

A partir daquele dia, e sem ouvir explicação alguma por parte dele, foi-lhe proibido falar com o rapaz. Ela julgava não se importar com o facto da traição, sabia, ou pensava, ingénua, que sabia a quem pertencia a alma do homem. Mas os pais eram imperdoáveis.

 

Foi então que surgiu aquele belo homem. Ele era influente e possuidor de uma autoridade natural, ela aproximou-se dele porque sabia que conseguiria, através dele, aproximar-se do seu namorado. Passados alguns dias Hóracio pedia-a em casamento aos pais. E ela nunca voltou a ver o seu namorado. Já que outro não podia ser, ela gostava que o seu marido estivesse presente. O seu marido nunca estava presente. A única coisa a que o seu marido se agarrava era à guerra, pois sabia que na guerra não se podia agarrar a nada. Ao seu lado a sua única filha chorava, e não havia ninguém para cuidar dela.

 

Eduarda gritou, e pareceu estilhaçar-se toda por dentro. O bebé viu a luz cada vez mais próxima, e o Vagabundo esperava-o. Ao atingir a luz e brindando o mundo, foi porém a visão de um homem que era só metade, de uma mortalha negra e decepada, que o baptizou com muita dor.